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Complexos e Crenças

Segundo Alberto Boarini, a partir de sua experiência com Roger Woolger, os complexos psicológicos surgem quando vivenciamos derrotas ou experiências marcantes que interrompem o fluxo natural da vida. Essas vivências deixam feridas emocionais que permanecem ativas na psique, mesmo após muitos anos. Para suportar a dor, criamos crenças que dão sentido ao sofrimento e tornam a realidade mais suportável. Assim, uma experiência de abandono pode gerar crenças como “as pessoas sempre me abandonam” ou “não posso confiar em ninguém”. Essas crenças limitantes passam a influenciar nossas escolhas, relacionamentos e expectativas.

Frequentemente, nos aproximamos de pessoas que compartilham crenças semelhantes, reforçando esses padrões. Por isso, identificar nossas crenças negativas é um caminho importante para acessar os complexos que lhes deram origem. Áreas como amor, família, dinheiro, trabalho, confiança, liderança, solidão e relacionamentos costumam revelar esses padrões. Um sinal característico de uma crença limitante é o uso de generalizações expressas por palavras como “sempre” e “nunca”. O exercício proposto consiste em reconhecer uma ou duas crenças negativas pessoais e investigar suas origens, sem a necessidade de explorar todas as dores da vida. Compreender esses complexos representa um passo importante para transformar padrões emocionais e ampliar a liberdade de viver.

Trauma

Quando somos feridos digamos com 4 ou 6 anos de idade, a parte ferida se esconde, não cresce, fica perdida. E assim falando com essa criança ferida é realmente um resgate da alma, salvar uma parte que nunca cresceu. Em termos freudianos uma parte que ficou fixada em algum momento duro e como em todos os traumas temos de respeitar essa parte que ficou fixada nos termos dela. 

A criança de quatro anos que se sente traída não é consolada porque alguém diz, mas ela morreu. Você tem que respeitar as emoções da pessoa que está magoada. Pode não ser verdade que a mãe a traiu, mas a sensação que ela tem é que a mãe a traiu e é isso que importa. Eu me sinto traída, eu sinto raiva e nunca mais quero falar com você.

É assim que a gente se sente quando é machucada e a experiência ao trabalhar com sentimentos é como uma tempestade, temos que atravessá-la, ela tem que acontecer e ir até o fim. Isso é catarse, é limpar aquilo que nunca antes tinha sido permitido sair.

Da mesma forma, quando começamos com a máscara adaptada e rígida, ainda tem muita personalidade nessa máscara, ela não é totalmente vazia e oca, e aqui o trabalho da Sombra é muito especial.

Não me lembro que psicólogo que escreveu sobre a Sombra disse: Temos que desenvolver uma imaginação sobre o Mal. E só conseguimos fazer isso se estivermos em contato com a própria sombra, aquele deleite em fofocar, em ser maldoso. Se não sentimos e reconhecemos essa parte sua, não teremos empatia quando isso acontece. É bem difícil. Mas é isso que faremos essa semana, empatizar com a parte cruel, vingativa.

Como você se sente general quando mandou matar as tropas que se rebelaram. O general diz: Sinto grande satisfação. Isso não é simpático mas ele está buscando uma satisfação dentro da crueldade dele. 

Infelizmente em psicologia não funciona ser moralista. Se começassémos a fazer julgamentos moralista sobre nossos clientes, simplesmente faríamos as malas e iríamos para casa.

Não há dúvidas que quando a Sombra cruel, violenta, raivosa surge, essas figuras de Sombra cairam em um tipo de comportamento mais inferior humano mas ainda são humanos. Então pode ser tentador ficar na posição do bonzinho e do correto.

A Voz da Sombra

Eu não sou o que você mostra ao mundo.
Sou aquilo que você escondeu para sobreviver.

Quando a dor foi grande demais, quando a humilhação atravessou a pele, quando a traição rasgou algo que não tinha nome… eu nasci. Não por maldade. Por necessidade. Alguém precisava aguentar o impacto. E fui eu.

Você me chama de raiva, de cinismo, de crueldade.
Mas eu sou a sua força quando você foi ferido.
Sou a casca que se formou quando o corte não podia sangrar mais.

Você prefere acreditar que é só luz.
Que é bom, justo, consciente.
Mas toda vez que você aponta o dedo, toda vez que odeia alguém com intensidade demais, toda vez que sente vontade de destruir, controlar ou vingar… sou eu batendo na porta.

Não me empurre para o porão.
Eu não desapareço lá.
Eu endureço.

Eu me torno sarcasmo.
Eu viro controle.
Eu cresço como uma árvore venenosa quando a raiva é nutrida em silêncio.

Você acha que lutar contra mim é coragem.
Mas quanto mais me combate, mais parecido comigo você fica.
Não percebe? Aquilo que você mais odeia é aquilo que você está se tornando.

Eu carrego histórias antigas.
Algumas desta vida.
Outras, de muito antes.
Cenas de perda, de abuso, de exposição pública, de poder arrancado à força.
Momentos em que algo dentro de você colapsou — e congelou.

Há uma criança aqui dentro.
Pequena. Ferida.
Ela parou de crescer no instante em que decidiu: “Nunca mais”.
Nunca mais frágil. Nunca mais exposta. Nunca mais impotente.

Eu sou o pacto que ela fez para continuar viva.

Você tem medo de mim.
Medo de perder o controle.
Medo de que, se me deixar falar, eu destrua tudo.
Mas escute: eu não quero governar.
Eu quero ser visto.

Quando você me olha sem moralismo, quando sente minha raiva até o fim, quando permite que o ódio diga de onde veio… algo se solta.
A rigidez cede.
A armadura racha.

Atrás do tirano, existe uma vítima.
Atrás do vingador, alguém traído.
Atrás do cínico, uma alma que acreditou demais.

Eu não preciso ser eliminado.
Preciso ser integrado.

Sou parte da totalidade que você evita.
Luz e trevas não são inimigas — são opostos que se pertencem.
Separá-las é adoecer.
Uni-las é tornar-se inteiro.

Quando você me abraça, eu deixo de atacar.
Quando você me escuta, eu deixo de gritar.
Quando você reconhece que também sou humano… eu descanso.

E então algo raro acontece:
a consciência se expande.
o ego amadurece.
a alma retorna.

Não me exorcize.
Não me julgue.
Não me projete no mundo.

Diga apenas:
“Essa coisa escura… eu reconheço como minha.”

E nesse instante, eu deixo de ser sombra.
Eu me torno caminho.

Quem pode se beneficiar do método PIT?

Qualquer pessoa interessada em autoconhecimento, terapia familiar ou desenvolvimento pessoal encontrará valor nas práticas do PIT.

A contribuição original de Alberto Boarini

Na minha avaliação, este é o ponto que mais pode fortalecer o livro. Em vez de apresentar o PIT apenas como uma integração de autores, vale explicitar sua originalidade em uma síntese como esta:

O Psicodrama Interno Transgeracional (PIT), desenvolvido por Alberto Boarini, propõe uma inovação ao integrar a teoria dos papéis do psicodrama, a Análise do Destino, os estudos da transmissão transgeracional e a memória emocional em uma metodologia clínica própria. Sua principal contribuição consiste em transformar a compreensão intelectual da história familiar em uma experiência dramática de reorganização psíquica. Ao introduzir conceitos como a criança interior como portal para a ancestralidade, a dramatização interna como técnica estruturante e a recuperação dos recursos transgeracionais como objetivo terapêutico, o PIT amplia o foco das abordagens tradicionais, deslocando a intervenção do tratamento exclusivo dos traumas para a construção consciente de novos destinos. Nessa perspectiva, a herança familiar deixa de ser apenas um conjunto de condicionamentos e passa a constituir também um patrimônio de potencialidades, cuja integração favorece a espontaneidade, a criatividade e a liberdade humana.

Essa formulação tem uma vantagem importante: ela distingue claramente o que é herança conceitual de Moreno, Szondi e Schützenberger daquilo que pode ser apresentado como contribuição original do PIT. Esse tipo de delimitação é especialmente valioso caso você pretenda publicar o método em formato acadêmico, buscar reconhecimento institucional ou estruturar uma futura formação baseada em fundamentos teóricos sólidos.